18.1.13

Siga seu caminho

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Ela chorava baixinho enquanto arrumava a mala e a bolsa. Aquele choro quase inaudível, mas que incomoda mais que gritos e pancadaria.

Eu até me comoveria, se não estivesse com a razão. Cansei de ser sempre o compreensível, o bacana, o cara legal que deixa pra lá e esquece. Cansei de ser o babaca que corre atrás depois das brigas e fica responsável pelo bem estar do casal e pelo feng shui da casa.

Não. Dessa vez eu endureci e me posicionei. Ela saiu do quarto com um olhar acusador e infantil de menina birrenta.

- A culpa é sua - disse eu. - Você errou. Não vou abafar a coisa como das outras vezes.

- Mas... você não me ama? - perguntou ela, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.

- Amo demais - falei. - Amo tanto que agora entendi que devemos nos afastar e analisar a coisa friamente.

- Você fala como se nossa relação fosse um experimento científico! Como pode ser tão frio?

- Cansei, Sabrina. Só isso. Eu sempre me desculpo, mesmo pelo que não fiz, pelo sossego e pela harmonia. Mas você? Você só quer saber do seu lado. Você nunca erra. Não quero mais ser o bandido das situações.

Ela suspirou.

- Então é assim?

- Sim - falei. - A gente se vê por aí.

Bateu a porta com violência quando saiu. Alguns minutos depois arrancou com o carro e  sumiu da minha vida.

Fui até a geladeira e peguei uma cerveja. Se isso era uma vitória, por quê eu me sentia como um derrotado?

Liguei o rádio e lá estava o Fleetwood Mac tocando "Go your own way".

É isso, pensei. Pode ir, meu amor. Pode seguir seu caminho.

Vai ser bem solitário, eu sei, mas eu preciso reaprender a ser sozinho.



Ouvindo: "Go your own way", Fleetwood Mac.

Pelas despedidas e pelas vitórias. E pelo agridoce sabor das derrotas nossas de cada dia.

9.1.13

Quisera eu (balada do Menestrel)

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Quisera eu poder viver em teus olhos, princesa,
E preencher todo o teu Reino com uma luz plena e imprecisa -
Como formatos de nuvens no céu,
Ou árvores vistas ao longe do topo de uma montanha.

Quisera eu poder morar em teus lábios
E compartilhar de tuas palavras em sua gênese
E partilhar tua música e tua respiração
E me tornar um com a centelha que vibra e arde no que te dá a a vida.

Quisera eu ainda andar pelos caminhos de teus pensamentos,
Nos vilarejos de tuas memórias,
Ramos de flores nos braços e cheio de boas e más intenções.

Mas o tempo, este devorador de milhas e milhas de história
Nos separou da maneira mais dura e cruel.
Ainda te vejo e te sinto, mas jamais poderei tocar novamente teu coração.

Quisera eu ter tido a coragem necessária para me imprimir em teu peito,
Em tua alma...
Mas como todo bom Menestrel, princesa,
Eu apenas te empenhei meu amor e parti.

Quisera eu, princesa,
Poder adentrar em teus aposentos uma última vez...


20.7.11

Topázio

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            Era uma noite nublada e úmida, daí a sensação de calor que tomava conta de tudo. E junto com a sensação de calor, havia aquele desespero, aquela angústia que se tem quando se faz a mesma coisa todos os dias. E quando se tem esta angústia, nada mais pode te surpreender - ou isso é o que gostamos de pensar quando estamos perdidos, vazios, deixados de lado pelos outros. E nessa noite de segunda feira eu me sentia exatamente assim: cercado de gente e sozinho.
          
          Olhar para as pessoas ultimamente tem me deixado assim, como se houvesse um negrume ardendo dentro de mim, um vazio que nada pode preencher. Meu instinto então é me afastar delas, das pessoas - já que o inferno são os outros, embora eu me saiba condenado, pois não tenho sido um bom menino, ah, não mesmo.

          De dentro desta redoma cinzenta eu via o mundo correr. Alienado por conta própria, distanciei-me do mundo para ver a dança acontecer, já que nunca fora bom mesmo no dois-pra-lá/dois-pra-cá. Fazendo isso, senti que me adormecia, como se nada ou ninguém que acontecia no mundo me dissesse respeito. Tornei-me, num processo lento e natural, um estranho numa terra estranha.

          Segunda feira à noite, então. Para mim é o pior momento de uma semana, já que é o primeiro dia, e você terá de trabalhar/estudar no dia seguinte e ainda tem toda uma semana chata pela frente, sem a mínima esperança de desejar que acabe logo por que, ei, essa porcaria apenas acabou de começar.

           Mas, como diria um grande pensador, "a vida é uma caixinha de surpresas". Do alto de minha arrogante postura entediada - sem um mínimo de cuidado ou carinho pelos outros que, como eu, aguardavam pelo ônibus - vi alguém que me saltou aos olhos como um grito colorido num mundo preto-e-branco.

            Ela tinha cabelos vermelhos cortados à altura dos ombros, meio cacheados. Sua pele branca meio que brilhava como a lua, pintada - aqui e ali -  de sardas no colo, nos ombros e no rosto. Usava um vestido simples e bonito, amarelo salpicado de pequenas flores vermelhas. Não pude evitar olhá-la dos pés à cabeça, fazer o percurso inverso e enquadrá-la com um olhar safado e apaixonado de poeta. Deus, era linda.

             O mais iteressante, ela percebera meu olhar. Não que eu tivesse tentado disfarçar, mas a moça me encarou de volta e mandou um sorriso quente e úmido que quase me levou à loucura.

             Nessas horas, quando o inesperado acontece, todo o processo racional pára, dando lugar à uma sensação de que a vida, apesar das cores pálidas de alguns dias e noites rotineiros, ainda vale à pena. Flagrei-a olhando para mim e sorri.

             Normalmente, aquilo seria apenas mais um acontecimento corriqueiro, um algo-mais com cara de nada-de-mais que eu deixaria passar. Mas aquela figura ainda me sorria, um sorriso com aparência de convite.

             "Deixando a profundidade de lado", encaminhei-me para a linda moça ruiva que se encostava no poste e disse:

             - Você é a mulher mais linda que eu vi desde sempre.

             E mesmo que depois disso ela me desse um fora, minha noite estaria ganha, por causa daquele sorriso e daqueles olhos e pele corada, e do cheiro adocicado de flores que se desprendia dela.

             Virei as costas e saí, pois meu ônibus estava vindo. Não olhei para trás, nem depois de sentar fiquei procurando por ela através do vidro da janela. Apenas deixei as coisas como estavam, para não arruinar aquele arremate. Pus os fones de ouvido e comecei a cantar junto com Djavan -
             
             Kremlim, Berlim, só pra te ver e poder rir/
             Luzes, jasmim, meu coração, vaso quebrado/
             Ilusão/
             Fugir da froteira de topázio e lã, vou até rubi/
             Sedução poder sonhar
             Estupidez
             Você arrasa e me arrasou

             Só pra anoitecer o que é escuro
             Ninguém me beijou mais puro
             Estou lembrando de você
             Uma vez...

             - quando uma mão suave e quente tocou meu ombro. E eu percebi o perfume, e olhei para trás apenas para vê-la, branca e linda, ali no ônibus, ainda com o mesmo sorriso e o mesmo rubor.

             - Você não vai terminar o que começou? - perguntou.

             Sorri. Sorri com plena consciência de que a rotina tinha se abrido num rasgão violento, e agora olhava para mim com olhos insanos e sarcásticos.

             - Você gosta de Djavan? - perguntei.


Ao som de Roberta Campos, "De Janeiro a Janeiro".

28.6.11

"(...) the whole universe tells you that you have to have her (...)"

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Era um belo pôr do sol. Único, como todos os outros antes dele. E a sensação? Exultação, angústia, pequenez. Tão majestoso espetáculo abria-se diante de mim, só pra mim... e a Ponte dos Ingleses era um local perfeito para assistir ao sol se pôr em fins de junho.

- Lindo, não é?

Por um instante breve meu momento zen-conectado acabara de se partir. Eu não estava mais sozinho.

Olhei para o lado e pensei: não a vi - nem ouvi - chegar. Usava um vestido branco, rendado, que lhe alcançava a metade das coxas bem feitas. De estatura mediana, a pele negra reluzia sob a luz alaranjada do ocaso. Os cabelos estavam presos, mas pude perceber naturais. Mas o que mais me impressionou foram os olhos - castanhos, tão claros, cor de mel.

- É verdade - respondi. - Mas há coisas mais belas.

- Por exemplo? - perguntou.

- Você - falei, sem rodeios.

Ela riu, e seu riso era como mundos colidindo. Algo belo e profano, e sua voz rouca era cheia de tons, como uma bebida quente de chocolate, ou um licor escuro e forte.

- Rapidinho você, hein, moço?

- "O meu coração selvagem tem essa pressa de viver", diria Belchior.

- E você, o que diria?

- Diria que, repentinamente, perdi o interesse no fim da tarde e no sol poente. E que desejo você.

Agora apenas um sorriso, como se pensasse: "ele é esperto", ou: "ele é um idiota".

Ela se aproximou de mim. Meu coração estava completamente descontrolado. Eu suava como se tivesse corrido na São Silvestre.

- Nervoso? - perguntou ela. Ainda tinha aquele sorriso de dentes tão brancos. Seus lábios eram carnudos, vermelhos, quentes.

- Um pouco. Não costumo ficar fora até tão tarde.

Novo sorriso, maior, menos... cauteloso. Podia sentir seu cheiro agora, algo lilás, meio brisa.

Estávamos a menos de um metro de distância agora, e ela se aproximava lentamente. Um felino prestes a dar o bote. Seus pés faziam um barulho seco no piso de madeira.

Uma presa hipnotizada. Aqueles olhos.

- Você é interessante - disse ela, pondo a mão em meu peito. Mas tem coisas que jamais deve saber, ou tocar, ou experimentar.

- Por quê? - perguntei. Seu toque emitia pulsos de eletricidade e calor.

- Por quê nos sonhos também se pode morrer, meu querido. E quando se morre num sonho...

Aquele clichê eu conhecia. Mas estava pagando para ver, e ela sabia, pois num instante estávamos abraçados, nossos lábios colados, nossos corpos unidos e separados apenas pelas roupas que usávamos.

Vi imagens de uma terra estranha, cheia de luz e selvageria, como se o mundo ainda, então, fosse jovem. E percebi que ali, em minha frente, estava uma Imortal.

Afastei-me dela rapidamente. Percebi sua fraqueza, seu cansaço. Ela arquejava, segurando-se no peitoril da ponte. Seus olhos agora estavam quase brancos.

- O que é você? - perguntou.

- Tem coisas  que você jamais deve saber - respondi, caminhando em sua direção.



*_*-*_*

- Em homenagem ao Mestre Jeff Buckley e sua belissima Mojo Pin. Preferência ler escutando.


Abraços literários roubados, e

Cuidado com o pôr do sol. 

P.S.: Só as meninas. Não mexo com bicho homi. :P

24.6.11

Poema desnecessário

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E hei de dizer a todos que o amor é um sentimento que te amaldiçoa
- Atraiçoa –
Com um olhar assim, meio de canto, e um sorriso dissimulado.

E haverão de concordar comigo os poetas, os cantores e os que tocam algum instrumento musical;
E também sambistas de várias gerações, que cantam tristezas,
- Como queria mestre Vinícius.
E professores, e adolescentes, e donas de casa com suas novelas,
- E escritores, é claro.

Porque o amor é uma invenção e uma mentira, estilo literário, estilo musical;
Mas como todo monstro, volta-se contra seu criador, e sendo-lhe maior,
Mata-o.

Eis o que é o amor, meninos e meninas:
Ideia, conceito, energia-pensamento-sentimento transmutada em sinapses,
Sinais, signos, expressões, suor, toque, hormônios, feromônios.

Desejo.

E desde que o amor é exato – já diria Djavan,
Transborda, transborda-se, sangra tal qual açude no inverno.
Jamais poderá ser contido num recipiente finito, ou barrado, ou impedido.

E eis que amar afigura-se impossível, tanto quanto é impossível ancorar a alma na matéria.
Então amar afigura-se como exercício de fé,
E de fé eu não entendo.

Palavras vazias então.


31.5.11

Eis a Bossa, e ela é Nova - Homenagem a Jobim e Vinícius

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Mestres, eu os saúdo.
Tom e Vinícius, meus camaradas,
Devotados às suas vidas e à Música
Filósofos boêmios, cheios de brasilidade
Que encantam o mundo com poesia e harmonia

Que beleza
Ver o Rio de Janeiro com os ouvidos
- Que lindo...

Dá vontade de tocar e cantar com vocês, Mestres.

Pena que não dá.

Mais sorte tiveram Sinatra e Toquinho.
Eu, apenas escuto e cantarolo, desafinando em “Desafinado”.
Às vezes só, as vezes acompanhado,
Curtindo no MP3 e cantarolando no ônibus lotado,
Esquecido do mundo, do dia, do cansaço.

Eis a Bossa, e ela é Nova.

A Benção, Mestres.
Sem vocês, o mundo seria muito cinza e monótono.

Quem consegue se livrar de um grande amor?

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Quem consegue, realmente, se livrar de um grande amor?
Cada dor, cada pontada, cada arrepio?
Os cheiros e os gostos, os toques, as carícias,
Coisas tão importantes no momento
Trancafiadas num porão cheio de pó
Dum recesso suburbano da memória.

“Eu devia tê-la beijado aquela tarde”, penso eu, às vezes.
A nostalgia não foi convidada, mas é bem vinda.
Dá um gostinho marrom-amargo na boca,
E um pedacinho de arrependimento.
Você nem compara com as maravilhas que conseguiu, pois sabe
Que não se compara uma vida de amor ao amor de uma vida.

Não dá para trocar o que se tornou com o que podia ser -
Não se deve alimentar os mortos.
Mas não é pecado andar pela Conselheiro Tristão vez ou outra,
Escutar novamente sua sabedoria muda, seus silêncios profundos.

Quantos passos, quantas coisas, quanta gente.
Ela marcou minha vida de milhões de maneiras,
E se foi.
Nós fomos. Mundos paralelos, você sabe
A desculpa que se dá quando não dá, não deu.

A música me trouxe a lembrança de seu cheiro, de seu gosto, seu abraço, seu calor...
E eu me entreguei.
Por um instante apenas, sem culpa, o volume no máximo,
Vou lembrar daquela tarde e das poesias que fiz para ela.
E perceber que já não dói. A ferida fechou.

Adeus. Até logo.

Como é doce o amargor de um amor que não se consumou.

*     *     *

Essa é velhinha, pra complementar a sessão Nostalgia.

Abraços do Ladrão de Almas, que - algumas vezes - teve seu Coração Roubado.