28.6.11

"(...) the whole universe tells you that you have to have her (...)"

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Era um belo pôr do sol. Único, como todos os outros antes dele. E a sensação? Exultação, angústia, pequenez. Tão majestoso espetáculo abria-se diante de mim, só pra mim... e a Ponte dos Ingleses era um local perfeito para assistir ao sol se pôr em fins de junho.

- Lindo, não é?

Por um instante breve meu momento zen-conectado acabara de se partir. Eu não estava mais sozinho.

Olhei para o lado e pensei: não a vi - nem ouvi - chegar. Usava um vestido branco, rendado, que lhe alcançava a metade das coxas bem feitas. De estatura mediana, a pele negra reluzia sob a luz alaranjada do ocaso. Os cabelos estavam presos, mas pude perceber naturais. Mas o que mais me impressionou foram os olhos - castanhos, tão claros, cor de mel.

- É verdade - respondi. - Mas há coisas mais belas.

- Por exemplo? - perguntou.

- Você - falei, sem rodeios.

Ela riu, e seu riso era como mundos colidindo. Algo belo e profano, e sua voz rouca era cheia de tons, como uma bebida quente de chocolate, ou um licor escuro e forte.

- Rapidinho você, hein, moço?

- "O meu coração selvagem tem essa pressa de viver", diria Belchior.

- E você, o que diria?

- Diria que, repentinamente, perdi o interesse no fim da tarde e no sol poente. E que desejo você.

Agora apenas um sorriso, como se pensasse: "ele é esperto", ou: "ele é um idiota".

Ela se aproximou de mim. Meu coração estava completamente descontrolado. Eu suava como se tivesse corrido na São Silvestre.

- Nervoso? - perguntou ela. Ainda tinha aquele sorriso de dentes tão brancos. Seus lábios eram carnudos, vermelhos, quentes.

- Um pouco. Não costumo ficar fora até tão tarde.

Novo sorriso, maior, menos... cauteloso. Podia sentir seu cheiro agora, algo lilás, meio brisa.

Estávamos a menos de um metro de distância agora, e ela se aproximava lentamente. Um felino prestes a dar o bote. Seus pés faziam um barulho seco no piso de madeira.

Uma presa hipnotizada. Aqueles olhos.

- Você é interessante - disse ela, pondo a mão em meu peito. Mas tem coisas que jamais deve saber, ou tocar, ou experimentar.

- Por quê? - perguntei. Seu toque emitia pulsos de eletricidade e calor.

- Por quê nos sonhos também se pode morrer, meu querido. E quando se morre num sonho...

Aquele clichê eu conhecia. Mas estava pagando para ver, e ela sabia, pois num instante estávamos abraçados, nossos lábios colados, nossos corpos unidos e separados apenas pelas roupas que usávamos.

Vi imagens de uma terra estranha, cheia de luz e selvageria, como se o mundo ainda, então, fosse jovem. E percebi que ali, em minha frente, estava uma Imortal.

Afastei-me dela rapidamente. Percebi sua fraqueza, seu cansaço. Ela arquejava, segurando-se no peitoril da ponte. Seus olhos agora estavam quase brancos.

- O que é você? - perguntou.

- Tem coisas  que você jamais deve saber - respondi, caminhando em sua direção.



*_*-*_*

- Em homenagem ao Mestre Jeff Buckley e sua belissima Mojo Pin. Preferência ler escutando.


Abraços literários roubados, e

Cuidado com o pôr do sol. 

P.S.: Só as meninas. Não mexo com bicho homi. :P

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