20.7.11

Topázio

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            Era uma noite nublada e úmida, daí a sensação de calor que tomava conta de tudo. E junto com a sensação de calor, havia aquele desespero, aquela angústia que se tem quando se faz a mesma coisa todos os dias. E quando se tem esta angústia, nada mais pode te surpreender - ou isso é o que gostamos de pensar quando estamos perdidos, vazios, deixados de lado pelos outros. E nessa noite de segunda feira eu me sentia exatamente assim: cercado de gente e sozinho.
          
          Olhar para as pessoas ultimamente tem me deixado assim, como se houvesse um negrume ardendo dentro de mim, um vazio que nada pode preencher. Meu instinto então é me afastar delas, das pessoas - já que o inferno são os outros, embora eu me saiba condenado, pois não tenho sido um bom menino, ah, não mesmo.

          De dentro desta redoma cinzenta eu via o mundo correr. Alienado por conta própria, distanciei-me do mundo para ver a dança acontecer, já que nunca fora bom mesmo no dois-pra-lá/dois-pra-cá. Fazendo isso, senti que me adormecia, como se nada ou ninguém que acontecia no mundo me dissesse respeito. Tornei-me, num processo lento e natural, um estranho numa terra estranha.

          Segunda feira à noite, então. Para mim é o pior momento de uma semana, já que é o primeiro dia, e você terá de trabalhar/estudar no dia seguinte e ainda tem toda uma semana chata pela frente, sem a mínima esperança de desejar que acabe logo por que, ei, essa porcaria apenas acabou de começar.

           Mas, como diria um grande pensador, "a vida é uma caixinha de surpresas". Do alto de minha arrogante postura entediada - sem um mínimo de cuidado ou carinho pelos outros que, como eu, aguardavam pelo ônibus - vi alguém que me saltou aos olhos como um grito colorido num mundo preto-e-branco.

            Ela tinha cabelos vermelhos cortados à altura dos ombros, meio cacheados. Sua pele branca meio que brilhava como a lua, pintada - aqui e ali -  de sardas no colo, nos ombros e no rosto. Usava um vestido simples e bonito, amarelo salpicado de pequenas flores vermelhas. Não pude evitar olhá-la dos pés à cabeça, fazer o percurso inverso e enquadrá-la com um olhar safado e apaixonado de poeta. Deus, era linda.

             O mais iteressante, ela percebera meu olhar. Não que eu tivesse tentado disfarçar, mas a moça me encarou de volta e mandou um sorriso quente e úmido que quase me levou à loucura.

             Nessas horas, quando o inesperado acontece, todo o processo racional pára, dando lugar à uma sensação de que a vida, apesar das cores pálidas de alguns dias e noites rotineiros, ainda vale à pena. Flagrei-a olhando para mim e sorri.

             Normalmente, aquilo seria apenas mais um acontecimento corriqueiro, um algo-mais com cara de nada-de-mais que eu deixaria passar. Mas aquela figura ainda me sorria, um sorriso com aparência de convite.

             "Deixando a profundidade de lado", encaminhei-me para a linda moça ruiva que se encostava no poste e disse:

             - Você é a mulher mais linda que eu vi desde sempre.

             E mesmo que depois disso ela me desse um fora, minha noite estaria ganha, por causa daquele sorriso e daqueles olhos e pele corada, e do cheiro adocicado de flores que se desprendia dela.

             Virei as costas e saí, pois meu ônibus estava vindo. Não olhei para trás, nem depois de sentar fiquei procurando por ela através do vidro da janela. Apenas deixei as coisas como estavam, para não arruinar aquele arremate. Pus os fones de ouvido e comecei a cantar junto com Djavan -
             
             Kremlim, Berlim, só pra te ver e poder rir/
             Luzes, jasmim, meu coração, vaso quebrado/
             Ilusão/
             Fugir da froteira de topázio e lã, vou até rubi/
             Sedução poder sonhar
             Estupidez
             Você arrasa e me arrasou

             Só pra anoitecer o que é escuro
             Ninguém me beijou mais puro
             Estou lembrando de você
             Uma vez...

             - quando uma mão suave e quente tocou meu ombro. E eu percebi o perfume, e olhei para trás apenas para vê-la, branca e linda, ali no ônibus, ainda com o mesmo sorriso e o mesmo rubor.

             - Você não vai terminar o que começou? - perguntou.

             Sorri. Sorri com plena consciência de que a rotina tinha se abrido num rasgão violento, e agora olhava para mim com olhos insanos e sarcásticos.

             - Você gosta de Djavan? - perguntei.


Ao som de Roberta Campos, "De Janeiro a Janeiro".

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