26.5.11

Letras posteriores

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       Naquela manhã, ao despertar, eu não lembrava de nenhuma manhã anterior. Apenas percebia - antes de abrir os olhos - a claridade do dia nascente, e o cheiro de chuva recém-caída, e o canto dos pássaros.
Remexi-me na cama, como se espantasse um sonho terrível.
       - Não quero trabalhar hoje - sussurrei, deprimido.
       - E não precisa. Hoje é domingo - disse uma voz sonolenta ao meu lado.
       Senti um perto no peito, e uma urgência tomou conta de mim. De quem era aquela voz? Abri os olhos e vi. Ela.
     
       Lia.

       A pele branca, os cabelos negros ondulados. Estava parcialmente coberta por um lençol acetinado azul-celeste, que deixava à mostra seu belo par de pernas.
       - Lia? - falei, meio gritando, assustado.
       - O que foi, Uriel? O que houve?
       Ela estava linda ali, assanhada. Seu cheiro de flores azuis invadiu minhas narinas e pensei: estou sonhando ou alucinando? Eu já tivera sonhos reais antes, mas este... nunca tivera um assim. A luz nas coisas, nas paredes brancas, o vento nas folhas lá fora, pássaros trinando, um friozinho que entrava pelas persianas abertas, o aroma que se desprendia dela... Deus, o que era aquilo?
       - Meu amor, você está bem?
       Eu não sabia o que dizer. Lia... minha... Lia? Aqui, agora, ao alcance de minha mão, de meu abraço?
       Abracei-a. Fosse um sonho, paraíso ou inferno, eu viveria aquele momento. Eu a amara desde o primeiro dia e nunca a esquecera. Ela passeava pelas minhas lembranças nas músicas, nos filmes, nos lugares e nas poesias antigas. Eu via e revia em minha mente o momento em que eu a ganhara - e o momento em que a perdera.
       Eu me maldizia sempre por tê-la deixado ir sem beijá-la, e agora... agora ela dizia
       - Ei, tenha calma, amor! Não nos aperte demais!
       - Nós?
       Ela fez uma cara de "você é louco?" e afastou o lençol de sua barriga, mostrando-a.
       - Grávida? - sussurrei, e ela balançou a cabeça sorrindo.
       - Você não está bem mesmo, está? - falou, e senti como se fosse desmaiar. Aquilo - a sensação de estar sendo mantido dentro de um jogo cruel, apoderou-se de mim. Mas eu queria aquilo! Eu precisava! Aquela era a vida perfeita, eu e Lia, e um bebê nosso, na nossa casa, eu sempre desejara aquilo.
       Lia me beijou, levantou da cama e foi ao banheiro. Lá dentro, cantarolou nossa música, "Simples Desejo". Uma espiral girou dentro de mim, e eu me senti quase pleno, pois havia

       Uma divisão. Eu via dois caminhos, claros, como se estivessem diante de mim, mas havia uma escolha a ser feita.

A vida de sonho, perfeita, com Lia, começando praticamente do momento em que eu deveria tê-la beijado, desembocando ali, naquela manhã, naquela cama, naquele quarto

ou

A escolha que fora feita nos caminhos do passado, que começou no momento em que eu não beijara Lia, que me levou a conhecer, quase um ano depois, Dália, mãe de meus filhos. E eu vi que minha vida com ela, Dália, não seria tão perfeita quanto aquela que se apresentava como uma outra opção, nem tão feliz, mas era o que eu havia feito, construído, escolhido. E eu percebi como amava aquela escolha, e meus filhos nascidos, e como não queria perdê-los.

       A escolha que fiz, apesar de dolorida, e apesar de me ter arrancado um pedaço enorme, me satisfez mais do que nunca, porque era a coisa certa a se fazer. O outro caminho se apagou enquanto a espiral andava para trás, e eu nunca mais lembrei da outra vida, da outra opção.

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       Abri os olhos e lá estávamos eu e Lia, na frente do Terminal do Siqueira. Ela esperando ser beijada. Eu queria, mas algo em mim, mais forte que o desejo, fez com que eu a abraçasse e a beijasse - no rosto.

       Quando ela se foi, fiquei observando o sol se pôr por trás das casas. Havia uma enorme sensação de perda, um vazio, algo gritando dentro de mim, dizendo que eu havia perdido a chance de ter uma vida perfeita.

       - Que se dane - falei baixinho, e atravessei a avenida Osório de Paiva. Meu ônibus amarelo e vermelho vinha se aproximando e eu sinalizei. Estava triste e perdido, cheio de dúvidas e auto-acusações. Eu devia tê-la beijado, eu sabia, mas ao mesmo tempo uma alegria imensa tomava conta de mim e me acalmava.

        Ali, no reflexo do vidro da janela do ônibus, meu outro eu sorria de lado, piscava um olho e sussurrava um Nome começado com D, e outros dois nomes posteriores com N e J.

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