Um par de olhos e uma boca sorrindo tão linda. O corpo perfeito, ela surgiu morena diante de meus olhos. Resposta aos meus desejos ou conseqüência de meus sonhos? Não sei, mas ela se revelou a mim, pernas e quadris e seios e cabelos, uma menina-mulher completa que me olhou com olhos espetaculares, que eram como os meus. Nós éramos iguais, agora eu sei, além de qualquer mística ou fisiologia.
Mas eu, o poeta idiota, deixei-a fugir.
Ela me olhava com olhos de conhecer, aquela incômoda sensação de familiaridade. Perguntei seu nome, disse-lhe o meu, e sorrimos - um momento clichê que já não era mais.
* * *
Um dia ela me parou e disse: “Impressão de te conhecer dalgum lugar.”. “Não sou figura popular”, respondi, ao que ela sorriu e começou a enumerar lugares e momentos. Mas eu nunca estivera neles. Frustrada, ela desistiu de procurar na lembrança e eu a deixei.
Em outras vezes mais ela insistia: “Já nos vimos antes?”. Estranhei. Havia algo em seu olhar... ou estava eu imaginando?
De repente eu a procurava com o olhar, primeiro inconscientemente, depois fingindo não ser algo tão importante. Mas eu me desmanchava quando os olhos dela achavam os meus. E o sorriso dela passou a ser algo necessário, como água ou ar, ou Música.
Volta e meia ela perguntava, dizia me conhecer de algum lugar. Não que eu achasse aquilo irritante ou tedioso – pelo contrário, achava lindo aquela testa enrugada e os olhinhos apertados tentando lembrar “de onde...”. Eu sorria e descartava possibilidades. Hablas español, señor? Não, mas falo quase todas as línguas não-verbais. Viéramos do mesmo lugar, percebi enquanto olhava para aqueles olhos, enquanto desejava aqueles lábios. Ela causou reações em mim, um curinga e outro, polarizados, ionizados, energia pura, poder-se-ia dizer.
Cá estou me perdendo em bobagens poéticas de novo.
“Quais jogos você joga?”, peguntou-me um dia, duas estrelas castanhas brilhando na face, aqueles lábios carnudos tentando-me qual serpente no Éden. Como deviam ser doces aqueles lábios e quente aquele corpo moreno! Desejei-a. Mortalmente, pensei: faria qualquer coisa para tê-la. Mefistófeles rondou-me e eu, tolo, pedi um tempo para pensar.
“Muitos jogos”, respondi depois de acordar do transe em que me pusera. “Qual é o teu personagem preferido?”, e eu respondi: “Poeta-filósofo-louco.”. Ela sorrriu. “E o vampiro?”, perguntou.
“O vampiro dorme. Melhor não mexer com forças tão intensas por agora” - falei, sério.
Um clique entre nós. Daqueles que só acontecem em filmes, quando uma revelação – divina, talvez? - acontece.
“Agora sei de onde nos conhecemos”, disse ela, e riu, e saiu dali me deixando confuso. Por que rira? O que quisera dizer com aquilo?
Esperei que voltasse. Ainda rindo, linda, parou diante de mim e perguntou: “O que foi?”, como se aquilo fosse algo normal de se fazer, sair rindo de algo que não fazia sentido para alguém.
“Me explica isso”, falei, referindo-me ao clique. “Vai parecer loucura”, falou com seu sotaque delicioso. “Perfeito, detesto normalidade.”, respondi.
Ela falou.
Existem pessoas diferentes, disse. As que sabem e sentem que o mundo é mais que uma simples sequência linear de espaço-tempo (óbvio que ela não usou estes termos, mas o observador sempre altera o fenômeno, não?), e ela me sentiu assim, um igual, um curinga. “Nós vibramos na mesma frequência”, disse-me sorrindo. “Então foi fácil te reconhecer.”
Meu coração deu saltos, minha mente travou. Você é real?, pensei misturando conceitos, e ela sorriu de novo.
Eu estava apaixonado? Talvez. Tinha motivos para estar? Não sei. É preciso motivos para isso?
Senti que havia achado minha Eva. Mas por alguma ironia do destino, que nos chateia sendo tão irônico, ela se foi. Teve que ir. Eu? Quem sou eu para impedir alguém de ir?
No vazio que ela deixou nadei e naveguei perdido. Tudo o que eu tinha eram aqueles momentos passados, a troca de olhares/sorrisos e a sensação de não estar mais sozinho no manicômio nosso de cada dia.
Mesmo depois de tanto tempo, eu sei que ela - onde quer que esteja - continua vibrando na mesma frequência.
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