Ela sentou ao meu lado. Mal pude acreditar.
Acendi um cigarro, fingindo indiferença. Eu tragava a sensação, mas a fumaça fugia por entre meus dedos.
Ela me olhou com aqueles olhos castanhos enormes, uma pergunta muda ardendo na garganta.
- Você vai ficar?
Eu dei de ombros.
- Talvez.
O silêncio entre nós era constrangedor e familiar, como um amigo que não se vê há muito tempo. No céu, as nuvens corriam sobre suas carruagens de vento; na terra, envelhecíamos segundo a segundo, ouvindo a sinfonia da morte ficar mais e mais alta.
- É incrível a quantidade de bobagens às quais nos apegamos - falei, entre anéis de fumaça. - Uma lembrança, um desejo, um aroma. Às vezes o passado me sufoca.
- Você sempre foi distante e vazio - ela disse, uma lágrima no canto do olho. - Nunca consegui te tocar de verdade. Onde importava. Você nunca foi de alguém.
O cigarro morria em minha mão. A brasa respirava vermelho-fogo-cinza, e caía como pó. Do pó tu viestes...
- Eu sou uma força da natureza, Bia. Não posso ser contido.
- Eu odeio você, Tom. Isso é tudo o que ficou do nosso amor. Ódio. Amargor. Ressentimento.
Ela chorava agora. Cascatas de seus olhos. Tão linda.
- Quando posso pegar minhas coisas?
- Ontem. Hoje. Logo - sua voz era entrecortada. Suspiros de dor. Mas o coração não sente dor. Se assim fosse, a cada batida, exigiríamos a morte.
Fiz que sim. Onde mora o amor?, pensei. Com certeza não no coração. Talvez no estômago, no lóbulo da orelha esquerda, mas não no coração.
- Eu ainda te amo, seu estúpido.
- Passo lá amanhã. Às dez está bom para você?
Ela ficou de pé. Pensei que fosse explodir. Mas sua mão encontrou meu rosto de maneira explosiva. Som e fúria, como diria Shakespeare. Depois disso, virou as costas e saiu em direção ao poente.
Acendi outro cigarro - o meu voara em direção à grama com o tapa. Que ardia, diga-se. Cinco dedos e uma palma vermelhos, eu podia ver com minha pele.
Longe ela ia, e o sol se punha.
E no meio da fumaça, lembrei-me da música do Bowie.
Sim, eu era um suicida do Rock'n'Roll.
Adeus, amor. A gente se vê por aí.
Apaguei o cigarro e joguei-o na lixeira. O telefone toca. A vida continua.
Com certeza, o amor não mora no coração.
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