Cada vez que via seu sorriso, meu coração parecia ter vida própria. E embora eu jamais quisesse me apaixonar, seus olhos me prometiam obscenidades dignas de um Éden imemorial.
Caí por ela. Abandonei conforto, segurança, estabilidade, por uma vida de aventuras no desconhecido mundo que se mostrava adiante.
A viagem estava apenas para começar.
As mulheres têm um sexto sentido, e talvez um sétimo. Elas vêem. Nossa alma lhes é transparente; e mesmo o mentiroso profissional tremerá diante do olhar dissecante da mulher a quem se prometeu eterno amor.
Ela percebeu que eu tinha medo. E riu do meu cinismo. Mas por dentro chorou.
Foi tudo caindo assim, aos poucos, como um homem com um câncer terminal. As mentiras deram lugar às omissões, e nossos corpos pararam de soar em sintonia. Cada momento juntos passou a ser obrigatório.
O fim não demorou a chegar.
Perguntas sem resposta. Labirinto sem fio de Ariádne. Ícaro caindo. Sísifo. Hades.
Do Paraíso ao Inferno em seis meses. Como Lúcifer, eu caí. Mas não tive a dignidade de reinar ali, no meio de poças de vômito e auto-piedade.
Mas o tiro não mente. Este, que me atravessou o crânio, revelou-me toda a verdade:
Nenhum blues pode te salvar da depressão. Nenhum anjo te dá a mão no escuro.
Nenhuma mulher quer viver a vida sozinha com alguém a seu lado.
Meu adeus é cercado por bordas vermelho-pulsantes e escuridão. As coisas são claras para mim agora, e a morte não me assusta mais. Xeque-mate?
Um tiro certeiro e uma morte rápida era tudo o que eu podia me dar de adeus. Sem sentimento de culpa, sem uma cruz para carregar.
Pra que no deserto de fogo e gelo eu realmente pudesse ser eu.
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