Ele se apaixonou pelo seu riso fácil e sincero, e pelos olhos negros que cintilavam com uma luz sublime.
Ele sempre adorava essa palavra, sublime. Fazia-o pensar em algo único e especial.
Na pista de dança, ele ensaiava um básico 1,2,3 – 1,2,3 com os braços para cima, meio perdido, meio tentando se perder, quando a viu/sentiu/ouviu/cheirou.
Ela estava suada, os cabelos castanhos amarrados atrás da cabeça, uma camiseta branca, um perfume floral e uma dança – sim, pois ela sabia dançar. Era dona de cada músculo, cada passo, cada gesto. Estava a menos de três metros dele, e a única coisa que ele queria era poder tocá-la.
E a energia do universo condensava-se ao redor dela criando um halo especialmente único de beleza e agressividade, transformando a dança dela num nervoso processo de entropia místico-musical, até que
os olhos dela encontraram os dele.
Em momento algum ele esperava que aquilo acontecesse,
ela veio para junto dele num misto de dança e andar, gingando pela pista, rompendo a multidão com uma suavidade quase líquida, e naquele momento o tempo pareceu se contrair e parar, pois por algum motivo inexplicável, só havia ele e ela ali.
Eles começaram a dançar, achando alguma harmonia no caos. Ela ria dele, de seu jeito esquisito de dançar, e ele ria dela rir dele.
Tão intimamente estranhos.
Ele a tocou suavemente, e ela cedeu-se à mão dele, que era forte e imperiosa e crua, como um conquistador espanhol invadindo as Américas puras e livres do cristianismo sanguinário.
O beijo não tardou a acontecer, vindo à crista de uma onda de pressão urgente e obsessiva, cumulando os esforços e os anseios e sonhos de um rapaz inseguro e cheio de expectativas.
Mas o destino – ou fado – tinha outros planos, pois a moça logo o largou e, rodopiando como um dervixe alucinado, doou-se a outros braços tal qual tinha se dado a ele antes.
FrustraçãoDelírioLoucuraMedoRaivaSolidãoRevolta.
Nada mais fazia sentido para o rapaz. Onde estava o amor, aquele que povoava os livros de poesias e os filmes que ele vira?
Ele fugiu e refugiou-se no balcão mais próximo, cercado de estranhos, e pediu uma dose generosa de vodka. Talvez aquela bebida alienígena fizesse com que ele se sentisse em casa, não sei, pensou ele.
E bebeu, e bebeu, e bebeu, até que nenhum sentimento tivesse mais supremacia sobre os demais, e até que o bar fechou e todos se foram, e ele foi cambaleando até a praia para ver o nascer do sol e dormir na areia e acordar as nove da manhã de ressaca com a cabeça quase explodindo e o gosto de vômito na boca.
Ele nunca esqueceu a moça. Sua carne se lembrava da pressão, do cheiro, do gosto de sua língua, de sua temperatura, de sua voz rouca roçando seu ouvido e arranhando sua alma.
* * *
Mesmo passados trinta anos, pais de três filhos, gordo e careca, ele sempre foi consciente de que nunca mais se sentira assim com mulher alguma, e que aquela noite jamais se repetiria, nessa vida ou em outras – se existissem.
Chovia, o relógio na cabeceira marcava em caracteres vermelhopulsantes 2:37 da manhã.
Ele beijou a testa da esposa, que se mexeu incomodada – pelo frio, quem sabe – e a cobriu com seu cobertor.
E, repentinamente, percebeu que nunca se pode conhecer ninguém. Seus filhos, sua mulher, seus pais e irmãos e amigos, uma legião de estranhos. Ele próprio era um estranho para si mesmo.
Mas, amanhã era sexta-feira, e ele deveria sair de casa às sete, pois era diretor-geral, e os diretores têm de dar exemplo chegando na hora.
Mas
Talvez depois do expediente ele saísse para tomar uma vodka e dançar um pouco, 1,2,3 – 1,2,3.
E talvez aquela moça – que agora deveria ser uma mulher - se aproximasse dele com mil promessas vazias na forma de um beijo. Mesmo sabendo que isso era improvável, esperava que não fosse impossível
Porque fazia trinta anos que ele a esperava, e dançava 1,2,3 – 1,2,3,
Mas ela se perdera nos braços de outros
Numa pista de dança da década de 80.
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